terça-feira, 31 de março de 2009

Crise e exemplos seminais

Leonardo Boff *

Alguém que está comprometido com o pensamento originário e que se preocupa com o destino da humanidade e de nossa Casa Comum, deve ter a coragem de dizer: não adiantam apenas controles e regulações dos capitais financeiros e dos mercados para sairmos da crise como quer a tendência dominante. São panacéias que não afetam a raiz do caos atual. Querem fazer economia de mudanças radicais. Feitas elas nos livrariam de uma tragédia global. Preferem alimentar e vender ilusões de que, dentro de pouco tempo, tudo vai voltar ao normal. Mas como querem, não vai.

O fato é que o sistema e a cultura do capital não dão mais conta da condução da vida social da humanidade. As muitas crises são expressões de uma única crise: a crise espiritual. Não se há de identificar o espiritual com as religiões e as Igrejas. Ao contrario, a partir do espiritual devemos criticá-las, especialmente, a Igreja Católica, que sob o atual Papa, vive aterradora crise espiritual. Basta considerar a falta de compaixão que o Papa demonstrou na sua recente viagem à África, a propósito da AIDS que em alguns países é uma verdadeira devastação.

Quando falo de espiritualidade penso num novo sentido de ser, num novo sonho coletivo, urdido de valores infinitos como a cooperação, a solidariedade, o respeito a cada ser, o cuidado para com toda a vida, a harmonia com natureza, o amor à Mãe Terra e pluralidade das expressões do Sagrado.
Uma sociedade e uma economia só serão sustentáveis quando seus lideres e seus cidadãos são movidos por valores e princípios que respondem aos desafios da crise, pouco importando as dificuldades exigidas. São assumidos com coragem porque é uma exigência deste momento histórico e não por interesses daqueles filisteus de Wall Street que nos induziram ao erro. Estes toleram, com resistências, controles desde que não prejudiquem a dinâmica do mercado livre e a lógica da acumulação. Querem o mesmo apenas mais seguro.

Valores novos e exemplos seminais são os que verdadeiramente convencem. Refiro o exemplo de um empresário japonês, Yazaki, contado pela física quântica Danah Zohar, num precioso livro que aconselharia aos empresários a lê-lo "A Inteligência Espiritual" (Record 2002).

Yazaki herdou uma pequena empresa de mala direta. Expandiu-se pelo mundo inteiro. Conseguiu tudo o que queria: sucesso, riqueza, respeito da comunidade e uma família integrada. Mas sentia que algo lhe faltava. Corroia-o grande vazio interior. Sugeriam-lhe que frequentasse um mosteiro zen. Passou lá uma semana em meditação com um mestre respeitado. Encontrou-se com seu eu profundo e a conexão que ele mantém com o todo. Deu-se conta de que os bens materiais se mostravam ilusórios porque não o preenchiam, apenas lhe davam satisfação material.

Saiu do mosteiro com um outro olhar. Começou a perceber a beleza de uma cerejeira em flor e a singeleza de um caqui maduro. Em sua autobiografia escreveu:"Os seres humanos separaram o eu do mundo, a natureza da humanidade e o eu pessoal dos outros eus. Por isso caíram na armadilha das ilusões no esforço de preencher o eu vazio. E se fizeram vítimas fatais de um aterrador cenário de autoengano, de hipocrisia e de farisaísmo".

A experiência espiritual não o levou a abandonar o negócio. Deu-lhe um outro sentido. Trocou o nome da empresa, chamando-a de "Felicíssimo", combinação de "feliz" das línguas latinas. A acumulação devia destinar-se a aumentar a felicidade humana, dele e a dos outros. Esteve na Rio-92 para inteirar-se dos problemas ambientais. Destinou grande parte de sua fortuna a fundações que cuidam da educação e do ambiente. Termina seu livro dizendo: "servir nesse nível é servir a Deus". Com ele, a crise foi superada e a humanidade deu um pequeno salto na direção daquilo que deve ser.

[Autor do livro "Responder florindo: da crise de civilização a uma revolução realmente humana", Garamond, Rio].

* Teólogo, filósofo e escritor

sexta-feira, 27 de março de 2009

Base de Kassab aprova constitucionalidade da revisão do Plano Diretor

O vereador Gilberto Natalini (PSDB) leu seu relatório a favor da legalidade do projeto de Kassab sob vaias, protestos e até ameaças de sapatadas dos manifestantes presentes

Vereadores da base governista de Gilberto Kassab (DEM) conseguiram aprovar, na Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa, por sete votos a dois, a constitucionalidade do projeto de lei que revisa o Plano Diretor Estratégico (PDE) da cidade, de 2002. O projeto foi enviado por Kassab ao Legislativo.

Dois relatórios sobre a legalidade do projeto foram colocados em pauta. Um deles foi o do vereador João Antônio (PT), cujo parecer indicou a ilegalidade do projeto. Outro, substitutivo ao do petista, foi apresentado por Gilberto Natalini (PSDB), que defendeu a legalidade. Natalini, visivelmente irritado, leu seu relatório sob vaias, protestos e até ameaças de sapatadas dos manifestantes presentes que gritavam 'não, não, não, não à revisão'.

O clima ficou ainda mais tenso quando o vereador Celso Jatene (PTB) fez a afirmação de que os manifestantes, que lotaram o Salão Nobre da Câmara de Vereadores, não passavam da 'claque' de vereadores da oposição. Os presentes se revoltaram. Do plenário ouvia-se: 'Aqui não tem pau mandado de ninguém'. A reunião precisou ser interrompida por alguns minutos pelo presidente da Comissão, Ítalo Cardoso.

O que Jatene ignorava, e depois foi avisado, é que os manifestantes formam a Frente de Defesa do Plano Diretor Estratégico. A representatividade da Frente não é pouca. São 141 entidades que lutam pelo Direito à Cidade e pela implementação do plano.

A revisão do PDE deve ser feita e está prevista por lei, reconhece a Frente. A indignação manifestada pelas entidades está na forma como o Executivo conduziu este processo e em relação às mudanças propostas por ele.

Kassab não se deteve a uma revisão do plano. Ele extrapolou os limites legais e propôs um novo projeto, denunciam as entidades. O próprio PDE vigente 'estabelece os limites legais de sua revisão, restrita apenas à adequação das ações estratégicas do Plano', afirmam as entidades em carta aberta. De acordo com o vereador João Antonio, o prefeito não possui autorização para refazer o projeto.

Uma das supressões mais graves apontadas pelas entidades diz respeito às Políticas Públicas. Ou seja, Kassab, em seu projeto, retirou políticas de Turismo, Desenvolvimento Humano e Qualidade de Vida, Trabalho, Emprego e Renda, Educação, Saúde, Assistência Social, Cultura, Esportes, Lazer e Recreação, Segurança Urbana, Abastecimento e Agricultura Urbana. Essa mudança 'tira do Plano Diretor seu caráter social e estratégico, eliminando diretrizes e ações que articulam os diversos setores no planejamento do desenvolvimento econômico e social da cidade', afirmam as entidades.

Outra crítica à proposta de revisão ataca o fato de que não houve qualquer discussão pública consistente. A Frente não reconhece como legítimas as audiências públicas e o processo de consulta pública que a Prefeitura afirma ter realizado. 'A forma e linguagem herméticas e excessivamente técnicas de apresentação do projeto impossibilitaram à maioria das pessoas uma compreensão clara das propostas e de seus efeitos e conseqüências, tanto na cidade como na vida da população', argumenta a carta das entidades.

A revisão do plano sujeita ainda praticamente todo o território urbano à venda de áreas construídas superiores as hoje permitidas, liberando sem controle a verticalização e adensamento ao sabor do interesse imobiliário. 'A cidade precisa de normas rigorosas para impedir que o mercado imobiliário continue ditando as regras do crescimento urbano de São Paulo', disse João Antonio.

Para o urbanista Kasuo Nakano, do Instituto Polis, o que está em disputa são duas visões opostas de cidade. Uma é a cidade concebida como negócio, em que o espaço público é mercantilizado. A outra é a cidade dos Direitos. 'A sociedade está clamando por uma cidade de direitos e isso é efetivado quando temos o direito de participar dos rumos da cidade', afirmou o urbanista em audiência pública realizada na Câmara em meados de março.

Diante da derrota do relatório pela ilegalidade da revisão, João Antonio disse que daqui para frente a luta se dará para modificar o conteúdo do projeto. 'Esta será a essência da nossa oposição', afirmou.

O projeto segue para a Comissão de Política Urbana para depois ser votado em plenário.


Retirada do projeto

As entidades pedem que o prefeito retire da Câmara Municipal o projeto. Para que a revisão seja legítima, as entidades demandam, primeiro, que as mudanças sejam feitas com base em processos participativos democráticos, amplos e legítimos, e, segundo, que incorporem critérios de sustentabilidade social, econômica e ambiental, enfrentando os problemas das desigualdades sociais e territoriais existentes na cidade.

Para o vereador Jatene, a revisão do plano já foi adiada por muito tempo e não deve retornar ao Executivo. 'A Câmara Municipal não pode neste momento fugir a esta responsabilidade', defende. Ele garantiu ainda que serão realizadas todas as audiências públicas necessárias.

Pontos críticos da proposta de Kassab

- a retirada ou modificação de artigos que tratam de controle e participação popular nas decisões sobre o futuro da cidade, em evidente retrocesso da democracia participativa.

- a ampliação de áreas onde mais prédios poderão ser construídos, inclusive em áreas de várzeas.

- a retirada de Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) em áreas vazias e subutilizadas em bairros centrais, a diminuição do percentual mínimo de moradia social nas Zeis.

- a retirada da base territorial (macro áreas) que define onde devem ser aplicados os instrumentos de cumprimento da função social da propriedade, para evitar a permanência de áreas vazias e subutilizadas em boas localizações.

- a retirada dos prazos para apresentação de um plano de circulação e transportes e um plano de habitação, mais que nunca necessários e urgentes em nossa cidade.

- a supressão das Políticas Públicas Setoriais: Turismo; Desenvolvimento Humano e Qualidade de Vida; Trabalho, Emprego e Renda; Educação; Saúde; Assistência Social; Cultura; Esportes, Lazer e Recreação; Segurança Urbana; Abastecimento e Agricultura Urbana. Esta supressão tira do Plano Diretor seu caráter social e estratégico, eliminando diretrizes e ações que articulam os diversos setores no planejamento do desenvolvimento econômico e social da cidade.
Fonte: Carta aberta da Frente


Voto

Saiba quais os vereadores da Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa votaram a favor do projeto de revisão do Plano Diretor enviado pelo Kassab à Câmara:

Natalini (PSDB)
Agnaldo Timóteo (PR)
Celso Jatene (PTB)
Gabriel Chalita (PSDB)
José Olímpio (PP)
Ushitaro Kamia (DEM)
Abou Amadeu (PTB)

Votos contrários ao projeto do Kassab:

João Antonio (PT)
Ítalo Cardoso (PT)

O que é o Plano Diretor?

É o instrumento básico da política de desenvolvimento e da expansão urbana de um município. Nele devem estar garantidas regras e diretrizes não apenas para o espaço físico, mas também para os aspectos social, econômico e administrativo da cidade. Tudo deve ser construído com a participação da população. A Constituição Federal obrigada todos os municípios com mais de 20 mil habitantes a elaborarem seus planos.

Em São Paulo, desde 2002 está em vigor um Plano Diretor elaborado com significativa participação da sociedade. Mas até agora, quase nada foi colocado em prática. A prefeitura não implementou, por exemplo, toda a rede de corredores de ônibus e a rede de ciclovias e parques lineares previstas no Plano; a prefeitura não aprovou o Plano de Habitação e o Plano de Circulação Viária e Transportes. O atual PDE só pode ser revogado ou refeito em 2012.

Projeto de Vila Ecológica na Amazônia usando Bambu

"O uso de painéis modulados pré-montados com bambu é uma das inovações que o projeto procura viabilizar"

Grupo multidisciplinar trabalha na melhoria da construção para a região da Amazônia

Viabilizar uma habitação mais sustentável para a Amazônia, trabalhando desde o plantio do bambu até a execução de uma vila protótipo. Um grupo multidisciplinar de profissionais assumiu esse desafio e está construindo uma vila ecológica na sede da Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus. O projeto conta com apoio financeiro do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Finep, e tem como instituição executora o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

O conjunto de oito pequenas casas geminadas está permitindo a aplicação de pesquisas voltadas à busca de uma construção de qualidade e menos agressiva ao ambiente da região. “A proposta de moradia ecológica e sustentável busca economia de energia, priorizando ventilação e iluminação natural, a utilização de materiais locais e redução no uso de materiais que utilizam tecnologias poluentes em sua fabricação”, explicou o engenheiro Ruy A. Sá Ribeiro, em um dos seminários de avaliação do Programa Habitare.

Segundo ele, a vila experimenta uma alternativa de construção mista, voltada para habitações multifamiliares. Cada uma das unidades tem área de 42,92 m2, construídos com materiais convencionais como cimento, areia, barro, madeira e telhas cerâmicas. O bambu é usado como estrutura de painéis modulados pré-montados, concebidos a partir de estudos de engenharia dos materiais - uma espécie de taipa de bambu, revestida com cimento.

Conceitos de gerenciamento ambiental (reprodução do bambu e plantação de mudas), tratamento do bambu a partir de substâncias que não são agressivas ao ambiente, tratamento de esgoto no local e adoção de sistema para coleta e aproveitamento da água da chuva são outros princípios adotados. A estimativa do grupo é de que cada uma das moradias possa ser construída com recursos entre R$10 mil e R$12 mil.

Com a participação de profissionais de áreas como arquitetura, engenharia, solos e microbiologia, química, hidroquímica e hidrologia florestal, ciência e tecnologia da madeira, o projeto tem a coordenação da arquiteta Marilene G. Sá Ribeiro. Além disso, conta com a parceria da empresa J.V. Pires de Almeida, já que os projetos que têm recursos do Fundo Verde e Amarelo*, como é o caso do Programa Habitare, priorizam a parceria entre instituições de pesquisa e o setor produtivo.

(* O Programa de Estímulo à Interação Universidade - Empresa para Apoio à Inovação, mais conhecido pelo nome de Fundo Verde-Amarelo - FVA, foi criado por meio da Lei 10.168 de 29/12/2000 e tem como principal objetivo estimular o desenvolvimento tecnológico brasileiro, mediante programas de pesquisa científica e tecnológica que intensifiquem a cooperação de Instituições de Ensino e Pesquisa - IES e centros de pesquisa com o setor produtivo, contribuindo assim para acelerar o processo de inovação tecnológica no País.)

O Projeto Casa Ecológica (CasaEco)

O projeto Casa Ecológica utiliza na construção do protótipo de vila o bambu da espécie Bambusa vulgaris vittata, vulgarmente conhecido como bambu comum, ou bambu imperial. Esta espécie, que é exótica, foi escolhida por ser a mais abundante na região de Manaus, local da obra, e por apresentar características físicas e mecânicas compatíveis com a forma específica utilizada. A espécie que a literatura julga mais adequada para utilização na construção civil é Guadua angustifolia, nativa da Amazônia, que foi escolhida pelo projeto para disseminação na região, visando a sustentabilidade da obra. Esse tipo de bambu ocorre em vastas florestas naturais na Amazônia, mais notadamente na Colômbia e no Equador.

Para dar suporte à sustentabilidade de vilas ecológicas e construção de novas habitações, foi definido um plano de cultivo e de propagação do bambu Guadua angustifolia no Estado do Amazonas. Integrantes da equipe aprenderam como cultivar, tratar e manejar a planta. Mudas foram plantadas em áreas específicas e degradadas, seu crescimento vem sendo monitorado e a reprodução para disseminação já foi iniciada.

Sobre o Programa

O objetivo geral do Programa de Tecnologia de Habitação - Habitare é apoiar o desenvolvimento científico, tecnológico e a difusão do conhecimento no campo da Tecnologia do Ambiente Construído, por meio de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação que visem a contribuir para a solução do déficit habitacional do País e a modernização do setor da construção civil, no sentido da melhoria da qualidade, aumento da produtividade e redução de custos na produção e recuperação de moradias, especialmente destinadas aos segmentos de baixa renda.


Mais informações sobre o projeto:
Marilene G. Sá Ribeiro
Coordenadora da Pesquisa
INPA
(92) 3643-3377

Os autores do projeto são:
Marilene Gomes de Sá Ribeiro (arquiteta) - mlene3@hotmail.com
e Ruy Alexandre de Sá Ribeiro (engenheiro civil) ruy_saribeiro@yahoo.com
Veja aqui em anexo o pdf com a cartilha da obra da Vila:
VilaEco.pdf

quinta-feira, 12 de março de 2009

O que é uma escola sustentável?


Existem muitas definições sobre o que é sustentável. A mais apropriada que encontramos diz que o sistema em que vivemos deve satisfazer nossas necessidades de crescimento e manutenção armazenando mais energia do que a despendida para construí-lo. Isso quer dizer que nosso foco deve estar em obter o que precisamos no presente sem comprometer a estrutura para que as gerações futuras possam fazer o mesmo. A escola sustentável busca ensinar as crianças a viver dentro dessa lógica. Produzir ao invés de consumir e gastar. Só assim será possível difundir o conceito e aplicá-lo.

Para muitos estudantes o futuro parece incerto e até assustador. Por isso, existe a necessidade dessa interpretação mais ampla da educação. É preciso mudar o foco e escolher temas que ofereçam as ferramentas para construir um futuro sustentável. Isso envolve um aprendizado contínuo e interdisciplinar. E o meio-ambiente pode fazer essa ponte!

A eco-alfabetização traz em si mesma conceitos básicos da sustentabilidade. Programas que descobrem a natureza pela ciência, matemática, literatura, arte e ciências sociais permitem investigações práticas e encorajam avaliações críticas fundamentais para que tenhamos adultos capazes de viver de forma sustentável.

A reorientação da educação envolve não somente aumentar o conhecimento do aluno, mas incentivar o desenvolvimento de habilidades e valores que motivarão para estilos de vida sustentáveis. Já está comprovado que elevar o grau de instrução das pessoas não é suficiente para alcançar sociedades sustentáveis. Por isso estamos aqui. Nós e você. A escola-sustentável propõe uma educação básica que inclua o ensino de valores, a promoção do cuidado com o planeta, o cuidado com as pessoas e a partilha justa de recursos.

Como fazer isso?
O ensino da sustentabilidade deve começar com projetos. Eles enfatizam o pensamento crítico, a resolução de problemas, a tomada de decisões, análise, o aprendizado cooperativo, liderança e a capacidade de comunicação. Já o meio ambiente deve entrar como uma coisa divertida e dinâmica, algo que mostre para os futuros cidadãos que nós fazemos parte do que chamamos natureza e que não é apenas na semana dedicada ao meio-ambiente, ou no dia da árvore, que devemos pensar sobre ela. E mais uma vez você pergunta: como? A permacultura (inventada pelo australiano Bill Mollison na década de 70) tem algumas dessas respostas. Ela é um pacote pedagógico, uma metodologia para a criação de ambientes produtivos, sustentáveis e ecológicos que possibilitam o homem habitar a terra sem destruí-la.

E não pense que a escola é pequena demais para isso, ela é ideal. Começar envolvendo as crianças com os canteiros e espaços verdes da área escolar é o início perfeito do relacionamento entre esses pequenos seres humanos e a natureza. Lembre, estamos dando apenas o primeiro passo! Você vai ver como esses espaços, verdadeiras salas de aula ao ar livre, são capazes de entusiasmar e envolver seus alunos.
Veja através da tabela uma comparação entre o ensino tradicional, centrado no professor, e o ensino que propomos, aberto e centrado no aluno.

Educação centrada no professor
* Professor ensina, os alunos são ensinados;
* Professor sabe tudo;
* Professor pensa sobre os alunos;
* Professor é o sujeito do conhecimento e os alunos são o objeto.

Educação centrada no aluno
* Partilha a informação;
* Gera opções de aprendizado criativo e auto-iniciado;
* Alunos envolvidos no processo;
* Ênfase na avaliação holística;
* Alunos contribuem para a seleção das experiências de aprendizagem.

Como vemos, os modelos centrados no aluno são fundamentais para a criação de uma consciência sustentável. Eles oferecem processos interativos que podem ajudá-los a se sentirem responsáveis por seu aprendizado, desenvolvendo habilidades. Esse modelo de educação oferece ferramentas para restabelecermos o controle sobre o aprendizado, dirigindo nosso futuro para a sustentabilidade.

Mundo sustentável

O consumismo está se alastrando pelo mundo na busca de satisfação pessoal. Roupas novas, plásticos, carros, telefones celulares… Nesse processo o mundo está sendo destruído pelo esgotamento de recursos naturais utilizados na fabricação desses produtos. Um futuro sustentável implica na mudança de padrões insustentáveis de consumo, permitindo qualidade de vida com novos hábitos.

Para viver eticamente você não precisa parar de fazer compras. Mas a ética traz idéias novas, ajuda a economizar e gera dinheiro! Por exemplo: você pode adquirir produtos que tenham uma vida mais longa, que sejam de fácil conserto ou produzidos em sua região. Produtos mais duradouros evitam a necessidade de troca, os de conserto mais simples também. E a escolha de produtos locais pode economizar energia, além de eles serem mais baratos!

O mundo sustentável pede raciocínios como esse e, principalmente, que os estimulemos em nossas crianças. Com educação, escolhas adequadas e um comportamento responsável podemos reduzir o lixo, favorecendo o meio-ambiente.
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Fonte:
http://www.ecocentro.org/habitats/?page_id=15

quarta-feira, 11 de março de 2009

Comunidades do Piauí ganham bancos comunitários

Com 6.800 habitantes, o município de Cajueiro da Praia é apenas um satélite de Parnaíba, pólo econômico localizado na região norte do Piauí, que tem 150 mil habitantes. Em busca de maior autonomia econômica e procurando fortalecer o desenvolvimento da comunidade local, criou-se, no último dia 11 de junho, o Banco Caju da Praia, na cidade litorânea de Cajueiro da Praia, situada na divisa do Piauí com o Ceará.

A economia local é baseada na pesca e na agricultura. O Banco Caju da Praia objetiva adiar a fuga do dinheiro da comunidade para os centros econômicos mais evoluídos, como Parnaíba. Neste outro município, também foi inaugurado, na semana passada, o Banco Semear, dentro da mesma perspectiva. "Nós queremos conscientizar a população para que ela adie a saída do real para outros centros e, assim, produza mais riqueza dentro do município", ressalta Victor Hugo Saraiva, da Care Brasil.

Assessorado pelo Banco Palmas, do Ceará, o Caju da Praia é o terceiro banco comunitário do Piauí e faz parte de uma rede que conta com a participação de 26 instituições baseadas nos princípios da Economia Solidária. A moeda social, o cajueiro, começou a circular nesta segunda-feira (16).

De acordo com Victor Hugo, cerca de 800 cajueiros já circulam na comunidade. "Isso foi um diferencial do banco, pois as outras instituições não conseguiram esse número em apenas três dias. Sem contar que o efeito multiplicador da moeda também é significativo, porque ela não fica parada, ela passa do comerciante para o consumidor e vice-versa", afirma.

A metodologia do Banco Caju da Praia é similar à do Banco Palmas. Além de financiar o consumo, o banco deve oferecer suporte aos comerciantes locais. O banco só vai poder operar com força total daqui a seis meses, por meio de um financiamento do Banco Popular do Brasil. No entanto, algumas linhas de microcrédito já estão sendo liberadas para grupos específicos. Uma horta comunitária baseada nos princípios agroecológicos, uma cooperativa de frutos do mar, oficinas de artesanatos e cooperativas de costureiras são os projetos em andamento.

Há dois anos, começaram os debates e os seminários com a participação dos moradores da região. Foi realizado um diagnóstico do consumo e da produção locais. Foi constatado que a região litorânea do Piauí é economicamente vulnerável. "Atualmente, há um ensaio de desenvolvimento do turismo na região, reproduzindo o modelo predatório que ocorre no Nordeste. A compra de terras por estrangeiros já é uma realidade. Um grupo de espanhóis comprou 68% de Ilha Grande com a finalidade de construir um resort, expulsando as comunidades locais", informa Victor Hugo.

O Banco faz parte de um projeto mais amplo, uma vez que se insere no Núcleo de Ampliação de Valores Econômicos e Sociais Local (Naves), que integra o projeto da Aliança Mandu (Movimento de Articulação Norte Piauiense para o Desenvolvimento Sustentável), formada pela CARE Brasil, Universidade Federal do Piauí (UFPI), Instituto Floravida, Embrapa Meio-Norte e Fundação Kellogg.

As matérias sobre Economia Solidária são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil.
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Fonte:
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33566

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A crise do capitalismo e a sua superação

Qual é a natureza da atual crise do capitalismo? "O capitalismo sobreviverá ao século XXI?", pergunta Pedro A. Ribeiro de Oliveira, professor da PUC-Minas e membro de ISER-Assessoria, em artigo que recebemos e publicamos na íntegra. Ele busca responder as perguntas a partir da sua participação do Fórum Social Mundial 2009. Segundo ele, o "FSM é talvez o principal espaço mundial de articulação desse sujeito histórico coletivo, mas não é o único. É um estimulante espaço de diálogo e participação democrática, merecendo por isso todo respeito, mas é evidente que o processo histórico de superação do sistema capitalista requer muitas outras contribuições e provavelmente ainda ocupará uma boa parte do século XXI".
Eis o artigo.

O triunfo do capitalismo na guerra fria fez mais do que destruir o socialismo soviético: desde 1990 o ideário neoliberal tornou-se a referência obrigatória para a Economia Política. Quem não se alinhasse àquele pensamento passava por “atrasado”, incapaz de acompanhar o êxito do primeiro mundo cuja tecnologia de ponta seduz os povos. Naquele contexto, a realização do I Fórum Social Mundial, em 2001, parecia não ser mais do que um contraponto de menor importância ao Fórum Econômico que reunia nos Alpes suíços os responsáveis pelo mundo dos negócios em escala global. Estes, sim, davam a impressão de poderem decidir os rumos da Humanidade. Passados apenas oito anos, porém, a realidade é bem outra: enquanto em Belém do Pará membros dos diversos Movimentos Sociais reafirmam que “um outro mundo é possível” e falam dos avanços nessa direção, os global players do capitalismo reunidos em Davos pedem socorro ao Estado para evitar a falência do sistema financeiro mundial.

A instabilidade criada pela irresponsabilidade do sistema financeiro dos EUA se alastrou pelo mundo e já afeta toda a economia mundial. Durante um ano ela foi subestimada, como se não passasse de um desequilíbrio restrito a um setor, mas hoje ninguém duvida da sua gravidade. O foco do debate está na sua natureza e nos desdobramentos que ela poderá tomar. Este artigo tem por finalidade alimentar esse debate com a apresentação de algumas idéias levantadas no Fórum Social Mundial. Fique claro que se trata de uma síntese pessoal, desenvolvida a partir do que li e ouvi nas palestras das quais participei.

O foco do debate: a natureza da crise atual
A teoria econômica clássica encara as crises como ocorrências cíclicas e portanto normais no sistema capitalista, cujo crescimento sempre alterna tempos de expansão e de contração da economia. Em favor deste argumento pesa o fato de já se registrarem 46 crises no sistema de mercado desde 1790. Segundo essa teoria, as crises são o principal fator de aperfeiçoamento do mercado, posto que o obrigam a corrigir seus erros e exageros. Para essa corrente de pensamento, que domina o Fórum Econômico de Davos, o mais importante hoje é evitar todo “alarmismo” e recuperar a confiança no setor financeiro. Em termos práticos, isso significa injetar uma enorme quantidade de fundos públicos em socorro de instituições financeiras e empresas (no início de fevereiro essa injeção já alcançou o equivalente a quase dois trilhões de dólares) para tranquilizar o mercado e assim reativar a economia. Seguindo essa receita, em breve passará a turbulência e o capitalismo seguirá sua trajetória triunfal, ainda que ao preço de maior controle externo sobre as empresas financeiras.

Não é assim, contudo, que os intelectuais e representantes de Movimentos Sociais participantes do FSM encaram a crise atual. Todos sabemos que as crises no capitalismo são cíclicas e contribuem para depurá-lo de seus erros, mas isso não significa que esse sistema tenha a garantia da perenidade. Esboçado nas cidades do norte da Itália desde o século 13, estruturou-se no século 16, provocou a revolução industrial no século 18 e consolidou-se por meio das revoluções política e cultural do século 19. No século 20 atingiu a maturidade, ao mundializar- se pelo processo de globalização. Ao longo do tempo, não só assumiu diferentes formas – mercantilista, liberal, imperialista- colonial, de bem-estar social e neoliberal – como transferiu seus pólos (das cidades italianas para Amsterdã, dali para Londres e depois Nova York, de onde pode vir a transferir-se para Pequim). Todas essas mudanças foram acompanhadas de graves crises, em geral resolvidas por meio de guerras. O que se pergunta agora é se ele sobreviverá ao século 21.

Evidentemente, essa pergunta não entra na pauta do pensamento econômico neoliberal, que descarta a priori a possibilidade de o sistema capitalista vir a desaparecer – exceto na ocorrência de uma verdadeira catástrofe humana e natural – mas está cada vez mais presente na agenda intelectual de quem crê num “outro mundo possível”. Apresento aqui, em poucos parágrafos, os argumentos levantados em favor da hipótese de ser esta uma crise sistêmica que, por ser muito mais do que uma crise econômico-financeira , só poderá ser superada por meio de outro modo de produção e de consumo. Concluo o artigo analisando uma das experiências que apontam para a viabilidade histórica dessa superação do sistema capitalista de mercado.

Crise do sistema produtivista / consumista de mercado
Estamos, sem dúvida, imersos numa grave crise financeira. Basta ter presente que enquanto o PIB mundial alcançou quase US$ 55 trilhões, em 2007, o volume dos direitos negociados no sistema financeiro mundial chegou a quase US$ 600 trilhões. O mesmo indicador do valor (a moeda expressa em US$) aplica-se a duas realidades muito diferentes: o volume de bens e serviços efetivamente produzidos, e a compra e venda de direitos que são repassados sem que nenhum novo bem tenha sido produzido (por isso, chamados de derivativos) . Esses dados referentes à forma mais avançada do capitalismo podem ser resumidos no mote “lucrar sem produzir”.

Ainda que esse lucro puramente especulativo viesse a ser coibido, o sistema capitalista continuaria sob ameaça de colapso devido aos efeitos não-econômicos dos processos econômicos regidos pela lógica do lucro capitalista. Efeitos como a produção de lixo, o desperdício de matérias-primas e energia, a destruição da biodiversidade, a degradação dos solos e das águas, doenças (p.ex. o teor de enxofre no diesel da Petrobrás, os transgênicos da Monsanto), a exclusão social e a revolta dos oprimidos, são chamados de externalidades pela teoria econômica liberal. Por não contabilizá-los, o capitalismo consegue produzir enorme quantidade de riqueza e muitos lucros. O problema, agora, é que, a se manter a mesma lógica econômica, as externalidades se voltarão contra o sistema e o travarão. O déficit energético, o aquecimento global e a desumanização das relações sociais estão hoje a apontar que o sistema capitalista de mercado está prestes a esgotar sua capacidade de produzir riqueza.

Vejamos, em poucas linhas, como se apresenta hoje esse quadro de externalidades que ameaçam travar o funcionamento do sistema de mercado.

O produtivismo consumista do capitalismo tem fome de energia. O carvão para a “revolução industrial”, e mais tarde, a hidroeletricidade e o petróleo em abundância, permitiram a farra consumista do século 20. É verdade que essa farra só é real para cerca de um bilhão de pessoas (que consomem 80% das riquezas do mundo), pois outro tanto passa fome e a grande maioria da população da Terra consome apenas o suficiente.

Acontece que essas fontes de energia ou não são renováveis (carvão, petróleo, gás) ou são fisicamente limitadas (hidroeletricidade) . O mundo está num impasse: ou desenvolve novas fontes de energia, ou renuncia ao produtivismo consumista. O bilhão de pessoas que forma a “burguesia mundial” coloca suas esperanças nas novas fontes de energia que sejam renováveis (como a agroenergia) e, o quanto possível, “limpas”. A técnica representa para essa classe a grande esperança: ela acredita que um dia cientistas e pesquisadores descobrirão fontes de energia que lhe permita manter o atual padrão de consumo sem risco de esgotamento. Como esse dia ainda não chegou, os ricos continuam consumindo vorazmente os recursos da Terra, enquanto os pobres sonham poder consumir igual...

Enquanto isso, a Terra vê aproximar-se uma nova era geológica marcada pelo aquecimento global. Embora esse processo provavelmente se deva também a vários outros fatores, é certo que o produtivismo consumista é responsável por sua aceleração. As estimativas são incertas, porque o tempo da Terra é muito mais longo do que a biografia dos humanos, mas não resta dúvida que os regimes climáticos atuais sofrerão grandes mudanças. O degelo da calota polar, o alagamento das zonas litorâneas, a expansão dos desertos (o “rio aéreo” da floresta amazônica pode secar) e a desertificação dos mares são previsíveis: só falta acertar o ano...

Neste momento de crise global, o mundo se desumaniza na medida em que impera a “lei” do mais forte. O massacre do povo palestino na Faixa de Gaza, pelo terrorismo de Estado de Israel, não sofreu real oposição dos governos das grandes potências mundiais, que se limitaram a criticar a desproporção da retaliação israelense contra o Hamas. Outros conflitos desumanos e sangrentos ocorrem na África, onde milícias tribais e exércitos (em grande parte formados por meninos, pois a tecnologia atual não requer força física para empunhar uma arma!) ceifam milhares de vidas, enquanto mulheres são violentadas e a ajuda em alimentos é saqueada. Muitas dessas guerras são incentivadas por interesses externos, ligados à mineração – além das antigas empresas européias e estadunidenses, é importante a presença de capitais chineses, principalmente nas obras de infraestrutura para exportação.

Nesse contexto de desumanização, esgarçam-se os laços de solidariedade e difunde-se uma atitude cínica, que transforma todas as desgraças em espetáculo televisivo. Aliás, este é um tema recorrente no cinema, desde o sucesso do Titanic: espetacularizar o afundamento da civilização ocidental.

Para superar a crise: a parte da teoria
Fomos acostumados a ver a economia como uma área de conhecimento especializado, sobre a qual só gente com muito estudo (de preferência, numa universidade dos EUA) pode se pronunciar. Esquecemos que a teoria econômica nasceu como Economia Política, ao desligar-se da Ética que até o século 18 regulava o mercado. Só recentemente o pensamento neoliberal separou a Economia como ciência do funcionamento do mercado, e a Política como ciência que estuda o funcionamento do Estado. (Por isso o Presidente Lula confiou o Banco Central a Henrique Meirelles, como se as decisões macroeconômicas não fossem eminentemente políticas). A eclosão da crise implode essa compartimentaçã o de saberes e obriga a alargar o conceito de Economia, para que as relações sociais de produção e distribuição das riquezas sejam inseridas no âmbito das relações dos humanos com a Terra, relações estas que não podem perder seu caráter ético.

Essa mudança na teoria econômica permite-nos descortinar um cenário inteiramente diferente daquele que nos é traçado pelos economistas do sistema. Ao privilegiar a lógica do valor de uso sobre a lógica do valor de troca, o mercado se tornará simples regulador entre a oferta e a procura, perdendo o poder de gerar lucro para quem transforma dinheiro em capital. Essa teoria de um modo de produção e consumo vem sendo chamada de “ecossocialismo” , “socioeconomia solidária”, e outros nomes. Não vou me estender sobre o tema; basta esclarecer que institutos sociais como a economia solidária, a cooperativa e o planejamento estatal podem com vantagem substituir o mercado na regulação da produção, desde que seja respeitado o princípio da subsidiariedade: não assuma a instância maior o que a instância menor é capaz de fazer.

Talvez o pensamento e o exemplo de Ghandi – que faz a ponte entre a racionalidade ocidental e a sabedoria indiana – venha a servir como inspiração para um modo de produção voltado não para o crescimento econômico, mas para o bem-estar de todo ser vivo. Seu ideal humanista de simplicidade de vida, de não-violência (inclusive contra os animais, daí sua prática vegetariana) de autonomia local e regional, pode ser a base de uma nova economia: uma economia que abdica da utopia produtivista do progresso sem fim, para alcançar a utopia da harmonia universal com toda a comunidade de vida – a bela e provocante expressão usada na Carta da Terra para designar o conjunto dos seres viventes, superando o especismo humano.

Será mesmo ingenuidade propor um modo de produção e consumo calcado na simplicidade de Ghandi? Haveria perda substancial para um bilhão de pessoas acostumadas ao automóvel, a viagens aéreas, ao ar condicionado e a outros hábitos que a maioria da humanidade desconhece – embora sonhe um dia também usufruir. Mas outros 5,5 bilhões de pessoas teriam muito a ganhar se a renda mundial per capita estimada em US$8.200 fosse equitativamete distribuída: cada uma receberia o equivalente a R$1.500 mensais. Mesmo descontados os impostos, essa renda é mais que suficiente para viver, se a família contar com serviços públicos eficientes na área da seguridade social, educação e transporte. Com isso quero dizer que não se supera a crise pelo aumento da produção de bens e serviços, mas sim pelo crescimento zero acompanhado da partilha equitativa dos bens já disponíveis. Para sair da crise, há que pensar unidades de produção locais, articuladas em rede, com baixo consumo de energia (em relação aos parâmetros atuais nos países e setores ricos) e submissão aos imperativos éticos, pois não cabe economizar no custo monetário quando isso implica custo ecológico ou humano.

Será isso uma utopia? Sim, com certeza, mas é uma utopia que merece maior credibilidade do que as utopias da tecnologia onipotente, do progresso sem fim e da satisfação dos desejos por meio do consumo de mercadorias.

Para superar a crise: a parte da prática
Para concluir, apresento em poucas linhas algumas lições advindas do Fórum Social Mundial realizado em Belém. Elas mostram que muitos elementos desse novo modo de produção e consumo já são realidade.
Estima-se que existem no mínimo 22 mil empreendimentos de economia solidária no Brasil, onde trabalham cerca de 2 milhões de pessoas. São, em sua grande maioria, pequenas unidades de produção e/ou consumo. A variedade é grande: empresas falidas ocupadas pelos empregados, assentamentos rurais, cooperativas de produção artesanal, grupos de coletadores de material reciclável, cooperativas de serviços, bancos com moeda local e muitos empreendimentos de geração de renda.

Não é preciso dizer que esses empreendimentos enfrentam inúmeras dificuldades para sobreviverem no mercado regido pela lógica concorrencial dos interesses privados. Às dificuldades de ordem jurídica, porque é complicado obter o estatuto legal requerido pela economia formal (v.g. emitir nota fiscal, participar de licitações), acrescentam- se as dificuldades de formação: além do aprendizado necessário ao gerenciamento de qualquer empresa, é preciso ter em conta a especificidade da lógica que rege a economia solidária, pois só consegue êxito num empreendimento desse tipo quem rompe com a lógica concorrencial vigente no mercado. Essa formação para um outro paradigma econômico é inteiramente nova, e não se aprende na escola mas no árduo trabalho de aprender com os erros e acertos, comparando experiências próprias e alheias.

Muitos passos, porém, já foram dados e hoje a economia solidária avança a olhos vistos, nas diferentes partes do nosso Planeta. É importante perceber que ela não quer ser uma forma de política social – focada no atendimento às necessidades de pessoas excluídas do mercado – mas política econômica – um novo modo de produzir, distribuir e consumir bens e serviços. Isso implica duas grandes dificuldades a serem vencidas..

A primeira é o salto do micro ao macro: uma coisa são os empreendimentos locais, que agrupam no máximo algumas centenas de pessoas trabalhando; outra coisa é sua capacidade de um dia vir a atender as necessidades de quase 7 bilhões de pessoas, muitas delas querendo satisfazer os desejos atiçados pela propaganda veiculada pelo sistema capitalista. Esse salto não poderá seguir o modelo capitalista – que gerou a empresas gigantescas, transnacionais, com poder maior do que muitos Estados nacionais – mas deverá espelhar-se na moderna organização em rede: inúmeras pequenas unidades autônomas quanto à sua gestão mas articuladas entre si na consecução de projetos comuns. “Pensar globalmente e agir localmente” significa, hoje mais do que antes, ter um pé firme na base local, o outro caminhando para uma articulação regional, e os olhos na articulação nacional, continental e planetária. A gestão dessa rede só será efetiva se basear-se numa verdadeira democracia na qual o poder econômico não tenha peso algum e as minorias sejam respeitadas dentro dos rumos traçados pela maioria.

A segunda dificuldade a ser vencida reside no campo dos valores que regem o comportamento humano. Desde o Renascimento europeu, a concepção da pessoa humana como indivíduo livre tornou-se a base dos valores e direitos que regulam as nossas relações com outras pessoas e com a natureza. Essa concepção, porém, veio de par com a economia capitalista de mercado, que a levou ao extremo do egocentrismo, como se fosse cada pessoa o eixo em torno do qual o mundo gira. Assim como o egocentrismo deu a forma moral ao modo de produção capitalista, um novo paradigma de valores deve acompanhar o modo de produção e consumo ecológico e solidário. Há quem fale de uma consciência planetária para designar esse novo paradigma onde o ser humano se vê como parte da grande comunidade de vida – parte importante, sem dúvida, mas sem arrogar-se o poder de dominar as outras espécies vivas. Essa nova forma de consciência precisa apoiar-se numa ética universalista (que inclua os direitos animais e os direitos da Terra) e só terá a ganhar se gerar uma espiritualidade que a anime desde seu interior.

Enfim, resta perguntar em que medida esse agente coletivo que se organiza para superar o sistema capitalista pode ser identificado com o FSM. É certo que muitas das pessoas reunidas em Belém do Pará representam movimentos sociais nascidos das bases mas que não se limitam a lutar por seus interesses específicos, porque os incluem no grande bojo das lutas pela vida do Planeta. Mas é certo, também, que muitos outros grupos e movimentos não estiveram no FSM, pelos mais diversos motivos. O FSM é talvez o principal espaço mundial de articulação desse sujeito histórico coletivo, mas não é o único.. É um estimulante espaço de diálogo e participação democrática, merecendo por isso todo respeito, mas é evidente que o processo histórico de superação do sistema capitalista requer muitas outras contribuições e provavelmente ainda ocupará uma boa parte do século 21.

http://congressoverde200 9.ning.com

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

TECNOLOGIA : Uma questão de liberdade

Sobre o software livre

Numa era cada vez mais digital, os softwares suportam nosso modo de vida. Eles
influenciam na forma de como nos relacionamos com o mundo, realizamos nossos trabalhos e fazemos circular a informação. Eles estão presentes em praticamente tudo que possui um dispositivo eletrônico, e estão diretamente ligados às nossas liberdades básicas, como a liberdade de pensamento, a liberdade de escolha e a liberdade de expressão.

A definição de Software Livre, segundo a Free Software Fundation, nos mostra claramente o que é verdadeiro à respeito disso. Quando falamos de software livre falamos de liberdade, não de preço. Software livre se refere à liberdade dos usuários executarem determinados programas, para qualquer que seja a finalidade (liberdade nº 0); a liberdade de estudar como eles funcionam e adaptá-los às suas necessidades (liberdade nº 1); a liberdade de copiar e redistribuir cópias (liberdade nº 2); e por fim, a liberdade de modificar e aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos de modo que toda a comunidade possa se beneficiar (liberdade nº 3). O acesso ao código fonte é um fator indispensável para que essas liberdades se dêem de forma plena.

O que queremos dizer com liberdade do software? A liberdade pode ser mantida por sistemas transparentes que são baseados em padrões abertos, seguros, incluindo formatos de dados e protocolos de comunicação. A liberdade do software significa um futuro para a tecnologia no qual podemos confiar, um futuro sustentável que não cause impactos negativos sobre as liberdades básicas. Formatos de dados proprietários podem significar um bloqueio ao acesso à informação. Códigos fonte fechados, representam uma limitação ao conhecimento. Softwares proprietários custam milhões à governos, empresas e universidades, dinheiro este que pode ser investido em educação, infra-estrutura e treinamento. Por isso que, em todo o mundo, existe hoje um grande movimento migratório para sistemas livres, pois é uma questão estratégica garantir a não dependência tecnológica. O Governo brasileiro e de diversos estados da federação, inclusive o governo do Paraná, já há tempos vem utilizando softwares livres na administração e empresas públicas, pois além de mais inteligentes e seguros, economizam milhões em licenças.

Softwares livres, são muito mais eficientes, estáveis e seguros (por exemplo: não pegam vírus). Possuem uma infinidade de aplicativos que realizam as mais variadas funções, sendo a maioria deles gratuitos que podem ser livremente baixados e utilizados. Também contam com suporte técnico de uma gigantesca comunidade de desenvolvedores, colaboradores e grupos de usuários, que disponibilizam todo tipo de tutoriais e alimentam centenas de fóruns de suporte que esclarecem qualquer dúvida de usabilidade. A compatibilidade com documentos de outros sistemas é total. Já foi o tempo em que, utilizar Linux, era algo restrito para poucos nerds (usuários mais avançados). Hoje em dia, o sistema está muito evoluído e muito fácil de usar.

A internet e a WEB 2.0

A internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social da nossa época. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada pela liberdade de criação, de novos formatos midiáticos, programas, tecnologias e redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento.
A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O termo WEB 2.0 é uma metáfora que nos diz exatamente isso, nos fala de uma internet onde todos são criadores e produtores de conhecimento, atores de um mundo em transformação. Os websites de hoje em dia possuem ferramentas que permitem todo tipo de interatividade. O proprietário de uma página na web hoje não depende mais de um especialista para atualizar o conteúdo de seu próprio site. Um exemplo disto são os sites produzidos pela Ybytu-catu, que utiliza softwares livres, permitindo aplicar preços menores e oferecer aos seus clientes ferramentas com tecnologia de ponta, funcionabilidade e segurança.

Fonte: http://ybytucatu.com.br/

Links interessantes:
Ubuntu Linux: www.ubuntu.com
Kurumin Linux: www.kurumin-ng.com.br
Free Software Fundation: www.fsf.org
Creative Commons: www.creativecommons.org.br
Open Office (ferramentas de escritório): www.broffice.org
Gimp (editor de imagens)) www.gimp.org
Inkscape (gráficos e vetores): http://wiki.softwarelivre.org/bin/view/InkscapeBrasil
Fundação Mozilla (navegador e email): http://www.mozilla.org