sexta-feira, 24 de abril de 2009

Fundos Rotativos Solidários trazem melhorias para comunidades do Nordeste.

Por *Gleiceani Nogueira da Cáritas Brasileira.

A burocracia e as exigências de documentação pelos bancos são as queixas mais comuns dos agricultores e agricultoras na hora de acessar o crédito oficial. Mas, para muitas famílias e grupos, os fundos rotativos solidários têm sido um caminho para desenvolver projetos associativos e comunitários, visando o fortalecimento da agricultura familiar e a melhoria das condições de vida das comunidades.

A experiencia dos Fundos Rotativos Solidários existe em todo o Brasil e é bastante presente em comunidades rurais do Nordeste. Em um estudo publicado em março de 2006, Selvino Heck, assessor especial da Presidência, estima que existam hoje na região cerca de 180 organizações que trabalham apoiando iniciativas de fundos solidários.

De 2006 a 2008 foram investidos R$ 50 milhões em projetos nessa área, em todos os estados da região, através do Programa de Apoio a Projetos Produtivos Solidários, financiado pelos ministérios do Desenvolvimento Social (MDS) e do Trabalho e Emprego (MTE).

Os recursos do Programa são acompanhados por um comitê formado por representantes da sociedade civil ( Articulação no Semiárido Brasileiro, Fórum Brasileiro de Economia Solidária, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), do MDS, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), ligada ao MTE. Atualmente, são 50 projetos apoiados em diferentes áreas como beneficiamento de frutas nativas, criação de animais e construção de tecnologias de captação de água.

Segundo o representante da Articulação no Semiárido (ASA) no comitê gestor dos fundos solidários e membro do Patac, José Waldir Costa, a experiência do fundo rotativo solidário pode se iniciar com a captação de recursos junto a entidades apoiadoras. Nesses casos, o valor investido será devolvido pelas famílias beneficiárias para uma espécie de caixa coletiva e será utilizado em favor de outras famílias ou para outras necessidades da comunidade. É possível ainda organizar um fundo através de arrecadação financeira,feita na própria comunidade, onde cada família entra com uma cota estabelecida de acordo com suas possibilidades.

Waldir Costa também lembra que para uma comunidade iniciar um trabalho com fundo solidário é preciso que ela tenha capacidade de se mobilizar e se organizar. Ele ressalta ainda que muitas ações não dependem de recursos financeiros, ou seja, o fundo pode ser criado a partir da doação de material, sementes ou mão-de-obra da própria comunidade.

“A experiência dos bancos de sementes é um exemplo. As pessoas já têm as sementes e aí fazem a doação [para o banco] e juntam essas sementes no mesmo lugar. Então o recurso local é bem valorizado e alguns grupos têm iniciado trabalhos sem contar com a entrada de recursos externos”, explicou Waldir.

Os fundos rotativos solidários são também espaços de conhecimento, onde as comunidades aprendem a fazer a gestão de recursos e o planejamento das atividades. Outro impacto é em relação à autonomia das comunidades sobre bens dos quais, historicamente, elas eram dependentes, como água e sementes.

De acordo com o coordenador nacional da Cáritas Brasileira, Ademar Bertucci, os Fundos Rotativos devem ser considerados como instrumentos de desenvolvimento local. “A alimentação do fundo é apenas uma estratégia. O fundamental é o resultado organizativo, seja na comunidade, ou nas formas de produção”, explica Bertucci. A Cáritas Brasileira integra o comitê gestor dos Fundos Solidários através do Fórum Brasileiro de Economia Solidária.
Experiência paraibana

Durante a reunião do comitê gestor nacional no dia 7 de abril, foi realizado, em Campina Grande, na Paraíba, o Seminário Fundos Solidários: gerando riquezas e saberes. O objetivo do encontro foi divulgar e fortalecer as experiências da Rede de Fundos Solidários da Articulação no SemiÁrido Paraibano (ASA Paraíba). Participaram do encontro agricultores e agricultoras, universidades, representantes do governo e de entidades ligadas ao Pólo Sindical da Borborema e ao Coletivo Regional Cariri, Seridó e Curimatau.

Existem cerca de 500 fundos rotativos na Paraíba, distribuídos em 100 municípios. Além disso, dos 50 projetos de fundos solidários desenvolvidos no Nordeste, seis estão sendo executados no estado.

Para Haroldo Mendonça, coordenador geral de Comércio Justo e Crédito, da Senaes, além de conhecer as experiências de fundos rotativos da Paraíba, o debate do Seminário servirá para o comitê montar as estratégias dos próximos anos em relação a promoção dos fundos solidários no Brasil. “Estamos prevendo para o final do primeiro semestre deste ano uma nova etapa de apoio a projetos, no valor de R$ 3 milhões”, afirmou Haroldo Mendonça.

O Seminário também marcou o lançamento da campanha nacional Partilha Solidária, que se refere aos fundos rotativos solidários, desenvolvida pela entidade de cooperação Heifer. Também foi lançado um kit de material pedagógico - formado por um vídeo, uma cartilha e dois cordéis - que foi construído a partir das experiências da ASA Paraíba.

*Comunicadora da Asa Brasil. Edição: Mayrá Lima

segunda-feira, 13 de abril de 2009

FIB , "Qualquer semelhança com PROUT é mera coincidência"

AS NOVE DIMENSÕES DO FIB
Por:Marcos Arruda

“O índice FIB é uma abordagem holística às necessidades humanas, porque sem atender às necessidades tanto materiais como espirituais das pessoas e da sociedade, não é possível tornar realidade uma ‘sociedade boa e decente’.” (Thinley, 2007: xv)

“Desenvolvimento devia ser entendido como um processo que busca maximizar a Felicidade, em vez do crescimento econômico... reconhece que o indivíduo tem necessidades, materiais, espirituais e emocionais.” (Bhutan, 2020).

O índice do Butão leva em conta indicadores que cobrem nove campos da vida familiar e social da população. Cabe a nós, brasileiras e brasileiros, pesquisar a melhor maneira de definir Felicidade na nossa cultura, e desenhar os melhores indicadores para medi-la. O FIB é uma ferramenta de medida adequada para este objetivo: leva à redefinição do objetivo do desenvolvimento, à afirmação de um outro modo de planejar e organizar a economia, e à reorientação da economia e da tecnologia para que sirvam aos objetivos superiores do desenvolvimento social e humano.

1. Padrão de vida
Padrão de vida tem a ver com todas as necessidades materiais e a economia real. Padrão de vida digno é aquele que permite a todos e cada um ter suas necessidades básicas satisfeitas. O índice FIB identifica a proporção de padrão de vida digno que a sociedade logrou alcançar para toda a população, e as carências a preencher através de políticas públicas e de atividade produtiva e distributiva por parte da mesma sociedade. Concluido o índice FIB, abre-se outra etapa em que tais carências passam a fazer parte do plano de desenvolvimento socioeconômico.
Ficam evidentes, assim, duas coisas: uma, que o índice FIB é só um instrumento e um meio para o objetivo maior que é o desenvolvimento; a outra, que o desenvolvimento não pode ser só econômico, mas tem que ser, ao mesmo tempo, social e humano, e tem que ser realizado respeitando os limites da Natureza e da solidariedade entre as gerações. Por isso falamos em economia do suficiente, em relação à produção material, e economia da abundância em relação à partilha dos bens não materiais – conhecimento, sociabilidade, comunicação, arte como beleza, ética, afeto, amor.
As metas quantitativas que o índice FIB permite definir orientam efetivamente a economia para a satisfação dos direitos de todas e todos enquanto pessoas e cidadãs: direito à vida, ao trabalho, à alimentação saudável, à saúde, à educação, à habitação, a um ambiente limpo e são, à segurança... Todos estes direitos, quando satisfeitos, constituem diversas formas de riqueza, que evidentemente não são só materiais.
O mundo do capital é feito de divisões e separações: desigualdades entre classes sociais, ganância e voracidade pelo lucro e pelo dinheiro, trabalho explorado e alienado, falta de acesso da maioria aos bens e recursos produtivos, excesso de consumo e de lixo, envelhecimento planejado dos bens de consumo, e quantas outras enfermidades sociais. Em suma, no sistema comandado pelo capital e pela busca desenfreada de lucro, a maioria não tem um padrão de vida que satisfaça seus direitos e garanta uma existência digna para si e suas famílias. Isto ocorre porque o econômico está divorciado do social.
A proposta do FIB é reorientar a atividade econômica – economia entendida como gestão da casa (eco+nomia) – para a satisfação das necessidades de toda e cada comunidade e pessoa que compõe a sociedade. Para isso, é preciso mudar conceitos e leis, de modo a garantir um novo modo de relação social de produção, distribuição e consumo, a saber:
* substituir a forma excludente de propriedade dos bens produtivos por formas compartilhadas, fundadas no trabalho e no uso como valores primordiais;
* superar o sistema assalariado, que permite a apropriação do trabalho social por poucos donos do capital;
* criar formas eficazes de distribuição equitativas da riqueza social, seguindo o princípio da proporcionalidade (a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas capacidades);
* estabelecer que o trabalho, a terra e o dinheiro já não são mercadorias, mas serão empregados como fontes geradores de riqueza social e valorizados pelo seu valor de uso;
* criar formas inovadoras de remuneração cidadã, assim como os meios legais de garantir a distribuição equitativa dos ganhos da produtividade do trabalho, para que as pessoas liberem tempo para desenvolver as suas dimensões especificamente humanas, sociais, culturais e espirituais;
* enfim, introduzir a cooperação como modo principal de relação entre os atores econômicos, em vez da competição que lança todos contra todos e está entre os principais obstáculos para a paz.
O FIB dá os elementos para a definição de um plano de metas para as diversas atividades econômicas, orientando-as à realização do que são fatores socioecônomicos de um padrão de vida digno para toda a população, portanto, componentes de um índice de Felicidade sempre maior.

2. Boa governança
A boa governança se define pela sábia gestão do poder econômico e político de modo a garantir que a sociedade crie e preserve as condições materiais, sociais, culturais e ecológicas de viver em harmonia, alegria, paz e Felicidade.
Governança tem a ver com gestão de pessoas, de instituições, de territórios e de recursos. A boa governança se chama democracia, no sentido pleno da palavra: ela combina de forma harmônica e criativa o sistema representativo com o participativo, a autoridade dos governos com a autonomia e a autogestão da sociedade, a democracia representativa e a democracia direta. A autoridade e a liderança são essenciais, mas o modo de exercê-las é que determina se visam dominar ou libertar. Na perspectiva libertadora, toda autoridade e liderança busca promover e facilitar o empoderamento dos sujeitos sociais para que se tornem protagonistas do seu próprio desenvolvimento. A partilha do poder de decisões e de gestão da economia e do desenvolvimento é, pois, indispensável. Também o é a redefinição do papel do Estado e da relação Estado, economia social, e economia privada.
A governança do Estado nas repúblicas é partilhada por três poderes teoricamente autônomos, independentes e complementares: Executivo, Legislativo e Judiciário. Isto vale desde a comarca ou comuna, passando pelo município e o estado, até o país. No plano internacional, a necessidade de boa governança levou à criação da Liga das Nações, depois da ONU e das organizações financeiras multilaterais. Todas elas estão defasadas e os atores preponderantes da governança global são as grandes corporações transnacionais.
Um exemplo gritante de má governança é a maneira como é gerido o Orçamento Público da União no Brasil. Para 2009, R$ 233,2 bilhões serão gastos no pagamento da divida pública financeira. Somada a rolagem da divida (troca de títulos velhos por títulos novos), chega-se ao mon­tante de R$ 758,8 bilhões. Portanto, quase a metade do orçamento fiscal e da seguridade social de 2009 (48%) está comprometida com os credores financeiros do governo. Enquanto isso, os serviços públicos de base continuam deteriorados e ineficientes, em prejuízo da maioria empobrecida do País. O FIB investiga o papel do dinheiro na vida das pessoas, e como sua carência e o endividamento afetam o padrão e a qualidade de vida.
O desafio da boa governança atravessa as várias esferas da vida humana. Pela ótica democrática, está em questão a autogestão do desenvolvimento por cada pessoa, cada família e comunidade, ecossistema, bioma, município, estado, país e a própria gestão partilhada do Planeta.
Na perspectiva do FIB, indicadores para todos esses níveis de governança precisam ser definidos a fim de identificar o grau de Felicidade ou a carência dela relativos à eficiência e eficácia da governança, desde a esfera institucional e das políticas públicas em cada um dos níveis, até a esfera da vida familiar e pessoal.

3. Educação
A abrangência, a qualidade e o alcance da educação são elementos a pesquisar para estabelecer o FIB.
Uma educação abrangente é aquela que envolve a totalidade dos aspectos e dimensões da existência humana, individual e coletiva. Uma educação omnilateral abrange desde os aspectos relacionados à pessoa até os que a situam nos contextos sociais e históricos mais abrangentes; ou pelo menos todos os campos que lhe permitam o desenvolvimento mais completo possível das suas forças produtivas, criativas e comunicativas enquanto ser humano e trabalhador3, das suas necessidades e da capacidade de satisfazê-las; e omnidimensional, que abrange todos os modos e faculdades de conhecimento que o trabalhador possui, todas as dimensões e todos os potenciais do seu ser, desde o corpo e seus sentidos até a mente, a psique, o espírito com seus múltiplos atributos.
A qualidade implica que a educação, além de capacitar as e os educandos para o trabalho produtivo e criativo de bens e de saber, seja capaz de promover e apoiar o auto-empoderamento dos educandos para a autonomia, a cooperação e a solidariedade. Pois, lembrando Paulo Freire - ninguém educa ninguém, e ninguém se educa sozinho – acrescento que ninguém empodera e desenvolve ninguém, e ninguém se empodera e se desenvolve sozinho.
O alcance tem a ver com o envolvimento de toda a população - crianças, jovens, adultos e idosos - em processos educativos permanentes, que lhes permitam estar continuamente se empoderando para gerir com mais eficácia o seu próprio desenvolvimento, enquanto seres individuais, comunitários, sociais, planetários e cósmicos, consciências que herdaram a responsabilidade de gerir sua própria evolução e o desenvolvimento pleno dos seus potenciais. É difícil encontrar um país no mundo de hoje que tenha um sistema educativo tão integral, mas este é o objetivo implícito no FIB. E ele exige um corpo docente educado para a educação que liberta e não subordina; bem remunerado; disposto a reciclar seus conhecimentos continuamente através da pesquisa, do trabalho e do diálogo criativo para dentro e para fora da academia.
Outros aspectos a incluir neste campo incluem:
* a liberdade de escolha de campos de estudo e trabalho;
* o tempo disponível para a atividade educativa (estudo, pesquisa, leitura, diálogos e debates, sistematização da prática) na vida da pessoa, como docente e como discente;
* os campos que estão ausentes ou são insuficientemente contemplados, como as artes, a comunicação, o aprendizado da autogestão da própria saúde e alimentação, as condições para a Felicidade na relação afetiva e conjugal, as condições que propiciam ou bloqueiam o amor.

4. Saúde
Este é um campo de enorme importância para o FIB. Visto pela ótica do capital, ele saiu da esfera dos serviços públicos e foi privatizado e mercantilizado. E pelo pior viés: o que tem preço e é fonte de lucro privado não é a saúde, mas sim a doença, os tratamentos e os medicamentos! Os indicadores habituais são número de médicos e enfermeiros, número de atendimentos, consultas, exames, número de leitos de hospitais, quantidade de medicamentos vendidos, etc. De direito humano a ser contemplado pelo serviço público de saúde, o capitalismo neoliberal converteu a doença em mercado, e o direito à saúde em mercadoria que tem que ser comprada individualmente, através de planos de saúde privados, que só são acessíveis às classes mais abastadas.
Outra dimensão importante deste campo do FIB é a autogestão da saúde individual e comunitária. Tem a ver com o tema da governança, que tratamos acima. Quem deve ter poder sobre minha saúde física, vital, mental, espiritual? Eu próprio, e cada sujeito, da sua! Mas a cultura do capital nos afasta do poder de conhecermos e gerirmos nossa própria saúde, omitindo ou excluindo este campo do saber dos programas e currículos da educação formal. A cultura do capital tenta nos convencer de que saúde é responsabilidade de peritos e não de cada pessoa: divulga por todos os meios a cultura da dependência de especialistas, hospitais e empresas farmacêuticas. Por isso, praticamente não existe lugar para a medicina preventiva nem para as atividades produtivas da saúde, como a cultura de plantas medicinais, a preparação de medicamentos naturais, a aprendizagem da alimentação adequada, o equilíbrio entre exercícios físicos e atividades sedentárias, o uso de produtos da terra como plantas, frutas, verduras, de emprego doméstico, argila, metais como ouro, cobre, etc. para o tratamento e a cura de enfermidades comuns sem recorrer a médicos nem a remédios industriais.
O FIB permite identificar quais as carências das cidadãs/cidadãos em relação ao acesso aos serviços de saúde, à sua qualidade, ao seu caráter social ou privado, assim como ao conhecimento sobre como gerir e preservar a própria saúde, curar as doenças, equilibrar os fluxos energéticos dos nossos corpos. Usado para guiar o planejamento da política pública de saúde, o FIB permite orientar os investimentos para suprir as carências que impedem a saúde de ser fator de Felicidade para a cidadania.

5. Resiliência Ecológica
É a capacidade de um ecossistema de recuperar seu estado inicial depois que ações humanas o alteraram. Os elementos que formam os ecossistemas e os biomas que dão origem e sustentam a vida são a Terra, a Floresta, o Ar, a Água e a Biodiversidade.
O problema dos riscos de catástrofes ambientais de grande escala, e os processos destrutivos de ecossistemas e biomas que a humanidade vive hoje, estão estreitamente ligados à lógica do capital, que define desenvolvimento como crescimento econômico, ou obtenção e acumulação do máximo lucro guiando a pesquisa científica e o avanço tecnológico. Também tem a ver com a formação de preços tomando em conta apenas os custos financeiros – matéria-prima, insumos, energia, máquinas e equipamentos, força de trabalho, crédito – sem considerar os custos sociais e ambientais do investimento. Estes ficam descartados como “externalidades”, a serem bancadas pela população, pelos consumidores ou pelo Estado. Entre eles está a destruição de mananciais de água doce, o desmatamento, a erosão e poluição dos solos, das águas e do ar, as emissões de gases de efeito-estufa e o aquecimento global, a produção desenfreada de lixos tóxicos e sua exportação para países e comunidades mais débeis e vulneráveis.
O FIB propõe uma abordagem diferente, baseada na noção de que o que fazemos contra a Natureza, fazemos contra nós mesmos. O Butão já tomou medidas estruturais para defender a capacidade de resiliência ecológica dos seus ecossistemas: dados publicados em 2007 informam que 26% do país são áreas protegidas e as florestas ocupam 72% do território. É preciso, porém, que se encontre o justo equilíbrio entre este campo de indicadores e o do padrão de vida, sobretudo no aspecto da soberania e segurança alimentar. Isto mostra que a abordagem do FIB não pode levar-nos a olhar os campos isoladamente, mas também a interação entre eles, sempre na perspectiva da criação das condições mais propícias para a realização da Felicidade individual e coletiva.


6. Diversidade Cultural
A maioria dos países do mundo contemporâneo possuem grande ou imensa diversidade cultural. O Brasil é um caso entre outros. Aqui a diversidade cultural existe em cima de uma dolorosa construção histórica colonial – conquista, genocídio, escravismo, barbárie de todo tipo contra as populações autóctones, imigrantes de diversos países, e a raça negra trazida da África para servir aos fins econômicos e comerciais dos europeus e das elites abastadas que o capitalismo mercantil e industrial constituiram.
A cultura do capital, motivada pela busca incessante do máximo lucro por qualquer meio, busca sempre maiores ganhos através de economias de escala. E estas conduzem à homogeinização dos produtos, dos gostos, das mentalidades e das aspirações humanas. No espaço dos negócios, essa cultura promove uma incessante competição entre os atores econômicos em busca do controle monopólico dos seus respectivos mercados e da mente dos consumidores. Resulta daí uma economia e uma sociedade voltadas para a confrontação, a guerra, a subordinação ou a eliminação do Outro, do diferente.
A Socioeconomia Solidária toma como fundamento filosófico o conceito do Ser Humano como indivíduo social, cordialis, amans em vez de oeconomicus, aggressans, e portanto, como uma espécie diversa de outras no contexto do reino animal, e composta por uma diversidade de raças, etnias, culturas, tradições. Daí seu apreço pelo princípio-guia da vida coletiva: o princípio da complementaridade do diverso. A diversidade cultural, vivida na perspectiva da cooperação e da solidariedade, é fonte de riquezas materiais e de maiores saberes e afetos do que cada cultura isolada. Isto exige a interiorização do fato de que somos solidamente interconectados, pelo fato de sermos irmãos e irmãs do gênero humano, de termos origens comuns e destinos cada vez mais convergentes. Com a globalização, fica mais verdadeiro do que nunca a consigna: o que fazemos aos outros e à Mãe Natureza, fazemos a nós mesmos.

7. Vitalidade Comunitária
Tendo em vista que o Ser Humano é um ser social, relacional, que existe, se identifica e se realiza na comunicação, seja interpessoal, seja com coletivos humanos, a vitalidade comunitária é uma dimensão indispensável da busca de Felicidade. Mas também no plano da atividade econômica, a nossa dimensão social é importante: somos seres interdependentes para sobreviver fisicamente e para obter a máxima qualidade de bem-viver.
A vida social e comunitária – trabalho, convivência, sociabilidade, intercâmbio de saberes, diversão, desenvolvimento mental, psíquico e espiritual - exige condições que transcendem a existência meramente física da pessoa. No entanto, a condição de pobreza e exclusão social de grande parte da população do Brasil e do mundo impedem uma vida comunitária saudável. A incidência da pobreza, da marginalidade, da falta de acesso à educação, à saúde, aos recursos básicos para a sobrevivência física se traduzem em violência. E em escala crescente, dado que a violência é uma expressão eloquente da carência de vitalidade comunitária, e do carinho, afeto e amor sem os quais o Ser Humano se desfigura, adoece, morre... ou passa a matar.
Só uma economia fundada nas instâncias da família e da comunidade, e informada pelos valores da cooperação, do altruísmo recíproco, da solidariedade consciente e do amor é que dará fundamento a famílias e comunidades equilibradas e felizes. O FIB, ao investigar os diversos aspectos da vida familiar e comunitária das pessoas, inclusive idosos e crianças, facilita a formulação de políticas que ajudem a criar ambientes propícios para a vitalidade comunitária, e ofereçam as condições materiais e sociais para a convivialidade.

8. Uso equilibrado do tempo
Este é um dos fatores mais importantes da Felicidade, embora mal suspeitemos disso. Para a cultura do capital, tempo é dinheiro... Para nós, é trabalho, saber, criatividade, se soubermos bem usá-lo. Tempo é também, e principalmente, desenvolvimento, no seu sentido mais profundo de desenvolvimento mental, psíquico, espiritual! Não é por acaso que o humanista Karl Marx diz: “uma nação é verdadeiramente rica quando o dia de trabalho é de seis em vez de 12 horas. A riqueza não é o domínio sobre o tempo de trabalho excedente, mas im o tempo disponível fora do que é necessário na produção direta, para cada indíviduo e para toda a sociedade” (Marx, 1857-58: 706 – grifos meus). Nesta ótica, tempo é riqueza! Tempo liberado das tarefas ligadas à produção direta e à sobrevivência física é tempo disponível para o trabalho sutil de desenvolvermos nossas dimensões especificamente humanas, não somente animais! Lembremos que fazemos parte do reino da Noosfera, que já transcendeu a Biosfera, embora proceda dela e se apoie nela para subsistir em todos os planos.
O FIB busca identificar se estamos usando nosso tempo de modo equilibrado. Aqui, há que reconhecer que o tempo disponível, como toda outra riqueza, é função do modo de distribuição de todas as riquezas de uma sociedade. Quando estas são concentradas em classes abastadas, privilegiadas, o tempo disponível também está concentrado nelas. É o caso do Brasil. Para democratizar o tempo disponível, precisamos reestruturar a economia, criando mecanismos de democratização da renda, dos bens e recursos produtivos, do dinheiro como poder de compra, e dos ganhos gerados pelo aumento da produtividade. Tudo isso pode ser medido com indicadores.
É importante termos consciência de que a pergunta “como estou usando meu tempo?” é cabível tanto para as pessoas, como para seus ambientes de vida e trabalho – família, empresa, consultório, associação, entidade, repartição de governo. Ela é precedida por outra pergunta: “que atividades e ocupações me fazem feliz?”
É útil nos colocarmos essas duas questões para o nosso cotidiano, mas também para outras escalas de tempo – a semana, o mês, o ano... As perguntas incluídas no questionário canadense me parecem insuficientes, pois deixam de fora alguns temas importantes para países como o Brasil e megacidades como as que temos aqui: tempo gasto no transporte, uso deste tempo, tempo dedicado às artes, tempo dedicado à comunicação presencial, tempo dedicado à cooperação, tempo dedicado ao estudo e à educação permanente...

9. Bem estar psicológico e espiritual.
A educação para o desenvolvimento integral do Ser Humano deve ser omnilateral e omnidimensional justamente porque o seu objetivo maior é o bem viver psíquico e espiritual omnilateral e omnidimensional.
O bem estar psíquico e espiritual consiste em vivenciar encontros reciprocamente gratificantes entre pessoas, ter o sentido de comunhão com os outros e com o meio natural, o sentido de pertencimento, o acesso à tradição e à integridade cultural.
Alguns indicadores que favorecem a medida do bem estar incluem Felicidade/infelicidade subjetiva, satisfação/insatisfação com a vida, alegria de viver, liberdade/coerção, equidade/desigualdade, irmandade/separatividade, cooperação/competição, reciprocidade/unilateralidade, satisfação/insatisfação com dimensões como saúde, finanças, ocupações cotidianas, relações com familiares e amigos, espiritualidade (relação pessoal com o Divino), vida social e vida religiosa, frequência de sentimentos como empatia, alegria, bondade, perdão, raiva, inveja, culpa, medo, ressentimento, egoismo, orgulho, dor, frustração, problemas físicos ou mentais, e outros.
Esta diversidade de fatores do bem estar incluem também o transporte. Catherine O’Brien (2007:97) observa que o sistema de transporte “diz respeito não apenas a ‘mover pessoas e bens’, mas também gerar encantamento, descoberta, alegria e felicidade. Ela mostra como o modo, as distâncias e o efeito do transporte do diário para o trabalho por longas distâncias afetam o tempo disponível, o grau de bem viver e felicidade.
O ambiente e as condições propícias para o bem estar psíquico e espiritual inclui a satisfação das necessidades básicas (padrão de vida digno) e um meio natural e social saudáveis, cooperativos e não tóxicos, agressivos ou violentos.
Observemos enfim que, em última instância, todos os campos anteriores condicionam a realização da Felicidade neste campo.
BIBLIOGRAFIA

Arruda, Marcos, 2006, “Humanizar o Infra-Humano:

Arruda, Marcos, 2007, “Tornar Real o Possível:

Arruda, Marcos (org.), 2009, “Intercambiando Visiones de una Economía Responsable, Plural y Solidaria”, ALOE/PACS, Rio de Janeiro.

Bhutan 2020, « A Vision for Peace, Prosperity and Happiness”, Planning Commission, Royal Government of Bhutan.
http://unpan1.un.org/intradoc/groups/public/documents/APCITY/UNPAN005249.pdf

Marx, Karl, 1857-58, “Grundrisse: Introduction to the Critique of Political Economy”. New York: Vintage Books [1973 – traduzido por Martin Nicolaus].

O’Brien, Catherine, 2007, “Planning for Sustainable Happines: Harmonizing our internal and external landscapes”, in “Rethinking Development…”, p. 97ss.

The Centre for Bhutan Studies, 2007, “Rethinking Development: Proceedings of Second International Conference on Gross National Happiness”, Phama Printing & Publishers, Thimphu, Bhutan.

terça-feira, 31 de março de 2009

Crise e exemplos seminais

Leonardo Boff *

Alguém que está comprometido com o pensamento originário e que se preocupa com o destino da humanidade e de nossa Casa Comum, deve ter a coragem de dizer: não adiantam apenas controles e regulações dos capitais financeiros e dos mercados para sairmos da crise como quer a tendência dominante. São panacéias que não afetam a raiz do caos atual. Querem fazer economia de mudanças radicais. Feitas elas nos livrariam de uma tragédia global. Preferem alimentar e vender ilusões de que, dentro de pouco tempo, tudo vai voltar ao normal. Mas como querem, não vai.

O fato é que o sistema e a cultura do capital não dão mais conta da condução da vida social da humanidade. As muitas crises são expressões de uma única crise: a crise espiritual. Não se há de identificar o espiritual com as religiões e as Igrejas. Ao contrario, a partir do espiritual devemos criticá-las, especialmente, a Igreja Católica, que sob o atual Papa, vive aterradora crise espiritual. Basta considerar a falta de compaixão que o Papa demonstrou na sua recente viagem à África, a propósito da AIDS que em alguns países é uma verdadeira devastação.

Quando falo de espiritualidade penso num novo sentido de ser, num novo sonho coletivo, urdido de valores infinitos como a cooperação, a solidariedade, o respeito a cada ser, o cuidado para com toda a vida, a harmonia com natureza, o amor à Mãe Terra e pluralidade das expressões do Sagrado.
Uma sociedade e uma economia só serão sustentáveis quando seus lideres e seus cidadãos são movidos por valores e princípios que respondem aos desafios da crise, pouco importando as dificuldades exigidas. São assumidos com coragem porque é uma exigência deste momento histórico e não por interesses daqueles filisteus de Wall Street que nos induziram ao erro. Estes toleram, com resistências, controles desde que não prejudiquem a dinâmica do mercado livre e a lógica da acumulação. Querem o mesmo apenas mais seguro.

Valores novos e exemplos seminais são os que verdadeiramente convencem. Refiro o exemplo de um empresário japonês, Yazaki, contado pela física quântica Danah Zohar, num precioso livro que aconselharia aos empresários a lê-lo "A Inteligência Espiritual" (Record 2002).

Yazaki herdou uma pequena empresa de mala direta. Expandiu-se pelo mundo inteiro. Conseguiu tudo o que queria: sucesso, riqueza, respeito da comunidade e uma família integrada. Mas sentia que algo lhe faltava. Corroia-o grande vazio interior. Sugeriam-lhe que frequentasse um mosteiro zen. Passou lá uma semana em meditação com um mestre respeitado. Encontrou-se com seu eu profundo e a conexão que ele mantém com o todo. Deu-se conta de que os bens materiais se mostravam ilusórios porque não o preenchiam, apenas lhe davam satisfação material.

Saiu do mosteiro com um outro olhar. Começou a perceber a beleza de uma cerejeira em flor e a singeleza de um caqui maduro. Em sua autobiografia escreveu:"Os seres humanos separaram o eu do mundo, a natureza da humanidade e o eu pessoal dos outros eus. Por isso caíram na armadilha das ilusões no esforço de preencher o eu vazio. E se fizeram vítimas fatais de um aterrador cenário de autoengano, de hipocrisia e de farisaísmo".

A experiência espiritual não o levou a abandonar o negócio. Deu-lhe um outro sentido. Trocou o nome da empresa, chamando-a de "Felicíssimo", combinação de "feliz" das línguas latinas. A acumulação devia destinar-se a aumentar a felicidade humana, dele e a dos outros. Esteve na Rio-92 para inteirar-se dos problemas ambientais. Destinou grande parte de sua fortuna a fundações que cuidam da educação e do ambiente. Termina seu livro dizendo: "servir nesse nível é servir a Deus". Com ele, a crise foi superada e a humanidade deu um pequeno salto na direção daquilo que deve ser.

[Autor do livro "Responder florindo: da crise de civilização a uma revolução realmente humana", Garamond, Rio].

* Teólogo, filósofo e escritor

sexta-feira, 27 de março de 2009

Base de Kassab aprova constitucionalidade da revisão do Plano Diretor

O vereador Gilberto Natalini (PSDB) leu seu relatório a favor da legalidade do projeto de Kassab sob vaias, protestos e até ameaças de sapatadas dos manifestantes presentes

Vereadores da base governista de Gilberto Kassab (DEM) conseguiram aprovar, na Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa, por sete votos a dois, a constitucionalidade do projeto de lei que revisa o Plano Diretor Estratégico (PDE) da cidade, de 2002. O projeto foi enviado por Kassab ao Legislativo.

Dois relatórios sobre a legalidade do projeto foram colocados em pauta. Um deles foi o do vereador João Antônio (PT), cujo parecer indicou a ilegalidade do projeto. Outro, substitutivo ao do petista, foi apresentado por Gilberto Natalini (PSDB), que defendeu a legalidade. Natalini, visivelmente irritado, leu seu relatório sob vaias, protestos e até ameaças de sapatadas dos manifestantes presentes que gritavam 'não, não, não, não à revisão'.

O clima ficou ainda mais tenso quando o vereador Celso Jatene (PTB) fez a afirmação de que os manifestantes, que lotaram o Salão Nobre da Câmara de Vereadores, não passavam da 'claque' de vereadores da oposição. Os presentes se revoltaram. Do plenário ouvia-se: 'Aqui não tem pau mandado de ninguém'. A reunião precisou ser interrompida por alguns minutos pelo presidente da Comissão, Ítalo Cardoso.

O que Jatene ignorava, e depois foi avisado, é que os manifestantes formam a Frente de Defesa do Plano Diretor Estratégico. A representatividade da Frente não é pouca. São 141 entidades que lutam pelo Direito à Cidade e pela implementação do plano.

A revisão do PDE deve ser feita e está prevista por lei, reconhece a Frente. A indignação manifestada pelas entidades está na forma como o Executivo conduziu este processo e em relação às mudanças propostas por ele.

Kassab não se deteve a uma revisão do plano. Ele extrapolou os limites legais e propôs um novo projeto, denunciam as entidades. O próprio PDE vigente 'estabelece os limites legais de sua revisão, restrita apenas à adequação das ações estratégicas do Plano', afirmam as entidades em carta aberta. De acordo com o vereador João Antonio, o prefeito não possui autorização para refazer o projeto.

Uma das supressões mais graves apontadas pelas entidades diz respeito às Políticas Públicas. Ou seja, Kassab, em seu projeto, retirou políticas de Turismo, Desenvolvimento Humano e Qualidade de Vida, Trabalho, Emprego e Renda, Educação, Saúde, Assistência Social, Cultura, Esportes, Lazer e Recreação, Segurança Urbana, Abastecimento e Agricultura Urbana. Essa mudança 'tira do Plano Diretor seu caráter social e estratégico, eliminando diretrizes e ações que articulam os diversos setores no planejamento do desenvolvimento econômico e social da cidade', afirmam as entidades.

Outra crítica à proposta de revisão ataca o fato de que não houve qualquer discussão pública consistente. A Frente não reconhece como legítimas as audiências públicas e o processo de consulta pública que a Prefeitura afirma ter realizado. 'A forma e linguagem herméticas e excessivamente técnicas de apresentação do projeto impossibilitaram à maioria das pessoas uma compreensão clara das propostas e de seus efeitos e conseqüências, tanto na cidade como na vida da população', argumenta a carta das entidades.

A revisão do plano sujeita ainda praticamente todo o território urbano à venda de áreas construídas superiores as hoje permitidas, liberando sem controle a verticalização e adensamento ao sabor do interesse imobiliário. 'A cidade precisa de normas rigorosas para impedir que o mercado imobiliário continue ditando as regras do crescimento urbano de São Paulo', disse João Antonio.

Para o urbanista Kasuo Nakano, do Instituto Polis, o que está em disputa são duas visões opostas de cidade. Uma é a cidade concebida como negócio, em que o espaço público é mercantilizado. A outra é a cidade dos Direitos. 'A sociedade está clamando por uma cidade de direitos e isso é efetivado quando temos o direito de participar dos rumos da cidade', afirmou o urbanista em audiência pública realizada na Câmara em meados de março.

Diante da derrota do relatório pela ilegalidade da revisão, João Antonio disse que daqui para frente a luta se dará para modificar o conteúdo do projeto. 'Esta será a essência da nossa oposição', afirmou.

O projeto segue para a Comissão de Política Urbana para depois ser votado em plenário.


Retirada do projeto

As entidades pedem que o prefeito retire da Câmara Municipal o projeto. Para que a revisão seja legítima, as entidades demandam, primeiro, que as mudanças sejam feitas com base em processos participativos democráticos, amplos e legítimos, e, segundo, que incorporem critérios de sustentabilidade social, econômica e ambiental, enfrentando os problemas das desigualdades sociais e territoriais existentes na cidade.

Para o vereador Jatene, a revisão do plano já foi adiada por muito tempo e não deve retornar ao Executivo. 'A Câmara Municipal não pode neste momento fugir a esta responsabilidade', defende. Ele garantiu ainda que serão realizadas todas as audiências públicas necessárias.

Pontos críticos da proposta de Kassab

- a retirada ou modificação de artigos que tratam de controle e participação popular nas decisões sobre o futuro da cidade, em evidente retrocesso da democracia participativa.

- a ampliação de áreas onde mais prédios poderão ser construídos, inclusive em áreas de várzeas.

- a retirada de Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) em áreas vazias e subutilizadas em bairros centrais, a diminuição do percentual mínimo de moradia social nas Zeis.

- a retirada da base territorial (macro áreas) que define onde devem ser aplicados os instrumentos de cumprimento da função social da propriedade, para evitar a permanência de áreas vazias e subutilizadas em boas localizações.

- a retirada dos prazos para apresentação de um plano de circulação e transportes e um plano de habitação, mais que nunca necessários e urgentes em nossa cidade.

- a supressão das Políticas Públicas Setoriais: Turismo; Desenvolvimento Humano e Qualidade de Vida; Trabalho, Emprego e Renda; Educação; Saúde; Assistência Social; Cultura; Esportes, Lazer e Recreação; Segurança Urbana; Abastecimento e Agricultura Urbana. Esta supressão tira do Plano Diretor seu caráter social e estratégico, eliminando diretrizes e ações que articulam os diversos setores no planejamento do desenvolvimento econômico e social da cidade.
Fonte: Carta aberta da Frente


Voto

Saiba quais os vereadores da Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa votaram a favor do projeto de revisão do Plano Diretor enviado pelo Kassab à Câmara:

Natalini (PSDB)
Agnaldo Timóteo (PR)
Celso Jatene (PTB)
Gabriel Chalita (PSDB)
José Olímpio (PP)
Ushitaro Kamia (DEM)
Abou Amadeu (PTB)

Votos contrários ao projeto do Kassab:

João Antonio (PT)
Ítalo Cardoso (PT)

O que é o Plano Diretor?

É o instrumento básico da política de desenvolvimento e da expansão urbana de um município. Nele devem estar garantidas regras e diretrizes não apenas para o espaço físico, mas também para os aspectos social, econômico e administrativo da cidade. Tudo deve ser construído com a participação da população. A Constituição Federal obrigada todos os municípios com mais de 20 mil habitantes a elaborarem seus planos.

Em São Paulo, desde 2002 está em vigor um Plano Diretor elaborado com significativa participação da sociedade. Mas até agora, quase nada foi colocado em prática. A prefeitura não implementou, por exemplo, toda a rede de corredores de ônibus e a rede de ciclovias e parques lineares previstas no Plano; a prefeitura não aprovou o Plano de Habitação e o Plano de Circulação Viária e Transportes. O atual PDE só pode ser revogado ou refeito em 2012.

Projeto de Vila Ecológica na Amazônia usando Bambu

"O uso de painéis modulados pré-montados com bambu é uma das inovações que o projeto procura viabilizar"

Grupo multidisciplinar trabalha na melhoria da construção para a região da Amazônia

Viabilizar uma habitação mais sustentável para a Amazônia, trabalhando desde o plantio do bambu até a execução de uma vila protótipo. Um grupo multidisciplinar de profissionais assumiu esse desafio e está construindo uma vila ecológica na sede da Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus. O projeto conta com apoio financeiro do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Finep, e tem como instituição executora o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

O conjunto de oito pequenas casas geminadas está permitindo a aplicação de pesquisas voltadas à busca de uma construção de qualidade e menos agressiva ao ambiente da região. “A proposta de moradia ecológica e sustentável busca economia de energia, priorizando ventilação e iluminação natural, a utilização de materiais locais e redução no uso de materiais que utilizam tecnologias poluentes em sua fabricação”, explicou o engenheiro Ruy A. Sá Ribeiro, em um dos seminários de avaliação do Programa Habitare.

Segundo ele, a vila experimenta uma alternativa de construção mista, voltada para habitações multifamiliares. Cada uma das unidades tem área de 42,92 m2, construídos com materiais convencionais como cimento, areia, barro, madeira e telhas cerâmicas. O bambu é usado como estrutura de painéis modulados pré-montados, concebidos a partir de estudos de engenharia dos materiais - uma espécie de taipa de bambu, revestida com cimento.

Conceitos de gerenciamento ambiental (reprodução do bambu e plantação de mudas), tratamento do bambu a partir de substâncias que não são agressivas ao ambiente, tratamento de esgoto no local e adoção de sistema para coleta e aproveitamento da água da chuva são outros princípios adotados. A estimativa do grupo é de que cada uma das moradias possa ser construída com recursos entre R$10 mil e R$12 mil.

Com a participação de profissionais de áreas como arquitetura, engenharia, solos e microbiologia, química, hidroquímica e hidrologia florestal, ciência e tecnologia da madeira, o projeto tem a coordenação da arquiteta Marilene G. Sá Ribeiro. Além disso, conta com a parceria da empresa J.V. Pires de Almeida, já que os projetos que têm recursos do Fundo Verde e Amarelo*, como é o caso do Programa Habitare, priorizam a parceria entre instituições de pesquisa e o setor produtivo.

(* O Programa de Estímulo à Interação Universidade - Empresa para Apoio à Inovação, mais conhecido pelo nome de Fundo Verde-Amarelo - FVA, foi criado por meio da Lei 10.168 de 29/12/2000 e tem como principal objetivo estimular o desenvolvimento tecnológico brasileiro, mediante programas de pesquisa científica e tecnológica que intensifiquem a cooperação de Instituições de Ensino e Pesquisa - IES e centros de pesquisa com o setor produtivo, contribuindo assim para acelerar o processo de inovação tecnológica no País.)

O Projeto Casa Ecológica (CasaEco)

O projeto Casa Ecológica utiliza na construção do protótipo de vila o bambu da espécie Bambusa vulgaris vittata, vulgarmente conhecido como bambu comum, ou bambu imperial. Esta espécie, que é exótica, foi escolhida por ser a mais abundante na região de Manaus, local da obra, e por apresentar características físicas e mecânicas compatíveis com a forma específica utilizada. A espécie que a literatura julga mais adequada para utilização na construção civil é Guadua angustifolia, nativa da Amazônia, que foi escolhida pelo projeto para disseminação na região, visando a sustentabilidade da obra. Esse tipo de bambu ocorre em vastas florestas naturais na Amazônia, mais notadamente na Colômbia e no Equador.

Para dar suporte à sustentabilidade de vilas ecológicas e construção de novas habitações, foi definido um plano de cultivo e de propagação do bambu Guadua angustifolia no Estado do Amazonas. Integrantes da equipe aprenderam como cultivar, tratar e manejar a planta. Mudas foram plantadas em áreas específicas e degradadas, seu crescimento vem sendo monitorado e a reprodução para disseminação já foi iniciada.

Sobre o Programa

O objetivo geral do Programa de Tecnologia de Habitação - Habitare é apoiar o desenvolvimento científico, tecnológico e a difusão do conhecimento no campo da Tecnologia do Ambiente Construído, por meio de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação que visem a contribuir para a solução do déficit habitacional do País e a modernização do setor da construção civil, no sentido da melhoria da qualidade, aumento da produtividade e redução de custos na produção e recuperação de moradias, especialmente destinadas aos segmentos de baixa renda.


Mais informações sobre o projeto:
Marilene G. Sá Ribeiro
Coordenadora da Pesquisa
INPA
(92) 3643-3377

Os autores do projeto são:
Marilene Gomes de Sá Ribeiro (arquiteta) - mlene3@hotmail.com
e Ruy Alexandre de Sá Ribeiro (engenheiro civil) ruy_saribeiro@yahoo.com
Veja aqui em anexo o pdf com a cartilha da obra da Vila:
VilaEco.pdf

quinta-feira, 12 de março de 2009

O que é uma escola sustentável?


Existem muitas definições sobre o que é sustentável. A mais apropriada que encontramos diz que o sistema em que vivemos deve satisfazer nossas necessidades de crescimento e manutenção armazenando mais energia do que a despendida para construí-lo. Isso quer dizer que nosso foco deve estar em obter o que precisamos no presente sem comprometer a estrutura para que as gerações futuras possam fazer o mesmo. A escola sustentável busca ensinar as crianças a viver dentro dessa lógica. Produzir ao invés de consumir e gastar. Só assim será possível difundir o conceito e aplicá-lo.

Para muitos estudantes o futuro parece incerto e até assustador. Por isso, existe a necessidade dessa interpretação mais ampla da educação. É preciso mudar o foco e escolher temas que ofereçam as ferramentas para construir um futuro sustentável. Isso envolve um aprendizado contínuo e interdisciplinar. E o meio-ambiente pode fazer essa ponte!

A eco-alfabetização traz em si mesma conceitos básicos da sustentabilidade. Programas que descobrem a natureza pela ciência, matemática, literatura, arte e ciências sociais permitem investigações práticas e encorajam avaliações críticas fundamentais para que tenhamos adultos capazes de viver de forma sustentável.

A reorientação da educação envolve não somente aumentar o conhecimento do aluno, mas incentivar o desenvolvimento de habilidades e valores que motivarão para estilos de vida sustentáveis. Já está comprovado que elevar o grau de instrução das pessoas não é suficiente para alcançar sociedades sustentáveis. Por isso estamos aqui. Nós e você. A escola-sustentável propõe uma educação básica que inclua o ensino de valores, a promoção do cuidado com o planeta, o cuidado com as pessoas e a partilha justa de recursos.

Como fazer isso?
O ensino da sustentabilidade deve começar com projetos. Eles enfatizam o pensamento crítico, a resolução de problemas, a tomada de decisões, análise, o aprendizado cooperativo, liderança e a capacidade de comunicação. Já o meio ambiente deve entrar como uma coisa divertida e dinâmica, algo que mostre para os futuros cidadãos que nós fazemos parte do que chamamos natureza e que não é apenas na semana dedicada ao meio-ambiente, ou no dia da árvore, que devemos pensar sobre ela. E mais uma vez você pergunta: como? A permacultura (inventada pelo australiano Bill Mollison na década de 70) tem algumas dessas respostas. Ela é um pacote pedagógico, uma metodologia para a criação de ambientes produtivos, sustentáveis e ecológicos que possibilitam o homem habitar a terra sem destruí-la.

E não pense que a escola é pequena demais para isso, ela é ideal. Começar envolvendo as crianças com os canteiros e espaços verdes da área escolar é o início perfeito do relacionamento entre esses pequenos seres humanos e a natureza. Lembre, estamos dando apenas o primeiro passo! Você vai ver como esses espaços, verdadeiras salas de aula ao ar livre, são capazes de entusiasmar e envolver seus alunos.
Veja através da tabela uma comparação entre o ensino tradicional, centrado no professor, e o ensino que propomos, aberto e centrado no aluno.

Educação centrada no professor
* Professor ensina, os alunos são ensinados;
* Professor sabe tudo;
* Professor pensa sobre os alunos;
* Professor é o sujeito do conhecimento e os alunos são o objeto.

Educação centrada no aluno
* Partilha a informação;
* Gera opções de aprendizado criativo e auto-iniciado;
* Alunos envolvidos no processo;
* Ênfase na avaliação holística;
* Alunos contribuem para a seleção das experiências de aprendizagem.

Como vemos, os modelos centrados no aluno são fundamentais para a criação de uma consciência sustentável. Eles oferecem processos interativos que podem ajudá-los a se sentirem responsáveis por seu aprendizado, desenvolvendo habilidades. Esse modelo de educação oferece ferramentas para restabelecermos o controle sobre o aprendizado, dirigindo nosso futuro para a sustentabilidade.

Mundo sustentável

O consumismo está se alastrando pelo mundo na busca de satisfação pessoal. Roupas novas, plásticos, carros, telefones celulares… Nesse processo o mundo está sendo destruído pelo esgotamento de recursos naturais utilizados na fabricação desses produtos. Um futuro sustentável implica na mudança de padrões insustentáveis de consumo, permitindo qualidade de vida com novos hábitos.

Para viver eticamente você não precisa parar de fazer compras. Mas a ética traz idéias novas, ajuda a economizar e gera dinheiro! Por exemplo: você pode adquirir produtos que tenham uma vida mais longa, que sejam de fácil conserto ou produzidos em sua região. Produtos mais duradouros evitam a necessidade de troca, os de conserto mais simples também. E a escolha de produtos locais pode economizar energia, além de eles serem mais baratos!

O mundo sustentável pede raciocínios como esse e, principalmente, que os estimulemos em nossas crianças. Com educação, escolhas adequadas e um comportamento responsável podemos reduzir o lixo, favorecendo o meio-ambiente.
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Fonte:
http://www.ecocentro.org/habitats/?page_id=15

quarta-feira, 11 de março de 2009

Comunidades do Piauí ganham bancos comunitários

Com 6.800 habitantes, o município de Cajueiro da Praia é apenas um satélite de Parnaíba, pólo econômico localizado na região norte do Piauí, que tem 150 mil habitantes. Em busca de maior autonomia econômica e procurando fortalecer o desenvolvimento da comunidade local, criou-se, no último dia 11 de junho, o Banco Caju da Praia, na cidade litorânea de Cajueiro da Praia, situada na divisa do Piauí com o Ceará.

A economia local é baseada na pesca e na agricultura. O Banco Caju da Praia objetiva adiar a fuga do dinheiro da comunidade para os centros econômicos mais evoluídos, como Parnaíba. Neste outro município, também foi inaugurado, na semana passada, o Banco Semear, dentro da mesma perspectiva. "Nós queremos conscientizar a população para que ela adie a saída do real para outros centros e, assim, produza mais riqueza dentro do município", ressalta Victor Hugo Saraiva, da Care Brasil.

Assessorado pelo Banco Palmas, do Ceará, o Caju da Praia é o terceiro banco comunitário do Piauí e faz parte de uma rede que conta com a participação de 26 instituições baseadas nos princípios da Economia Solidária. A moeda social, o cajueiro, começou a circular nesta segunda-feira (16).

De acordo com Victor Hugo, cerca de 800 cajueiros já circulam na comunidade. "Isso foi um diferencial do banco, pois as outras instituições não conseguiram esse número em apenas três dias. Sem contar que o efeito multiplicador da moeda também é significativo, porque ela não fica parada, ela passa do comerciante para o consumidor e vice-versa", afirma.

A metodologia do Banco Caju da Praia é similar à do Banco Palmas. Além de financiar o consumo, o banco deve oferecer suporte aos comerciantes locais. O banco só vai poder operar com força total daqui a seis meses, por meio de um financiamento do Banco Popular do Brasil. No entanto, algumas linhas de microcrédito já estão sendo liberadas para grupos específicos. Uma horta comunitária baseada nos princípios agroecológicos, uma cooperativa de frutos do mar, oficinas de artesanatos e cooperativas de costureiras são os projetos em andamento.

Há dois anos, começaram os debates e os seminários com a participação dos moradores da região. Foi realizado um diagnóstico do consumo e da produção locais. Foi constatado que a região litorânea do Piauí é economicamente vulnerável. "Atualmente, há um ensaio de desenvolvimento do turismo na região, reproduzindo o modelo predatório que ocorre no Nordeste. A compra de terras por estrangeiros já é uma realidade. Um grupo de espanhóis comprou 68% de Ilha Grande com a finalidade de construir um resort, expulsando as comunidades locais", informa Victor Hugo.

O Banco faz parte de um projeto mais amplo, uma vez que se insere no Núcleo de Ampliação de Valores Econômicos e Sociais Local (Naves), que integra o projeto da Aliança Mandu (Movimento de Articulação Norte Piauiense para o Desenvolvimento Sustentável), formada pela CARE Brasil, Universidade Federal do Piauí (UFPI), Instituto Floravida, Embrapa Meio-Norte e Fundação Kellogg.

As matérias sobre Economia Solidária são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil.
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Fonte:
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33566